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Uma analogia entre relacionamentos e COEs
É tão bom namorar. Especialmente depois dos 30, quando já conquistamos nossa independência financeira e sabemos o que queremos — e, mais importante, o que não estamos mais dispostas a aceitar.
Ter alguém com quem contar e, ao mesmo tempo, continuar donas da própria vida, é um privilégio. Um privilégio que quase nenhuma de nossas avós — e poucas de nossas mães — puderam viver.
Podemos fazer planos com as amigas, viajar sozinhas, seguir nossa rotina, satisfazer nossos próprios desejos e sonhos. E ainda assim, dividir bons momentos com quem escolhemos. Cada um com o seu apartamento, suas manias, seus horários.
E, quando se encontram, é tudo leve.
Não há dependência — há escolha.
Estão juntos porque genuinamente gostam da companhia um do outro.
E isso muda tudo.
Namorar na idade adulta é viver o amor com liberdade, com respeito e com leveza.
E quando não funciona mais, tudo bem também. Cada um segue seu caminho, sem grandes consequências — talvez só algumas sessões extras de terapia. Sem advogados, sem brigas por guarda de filhos, sem prejuízos no patrimônio — só a certeza de que valeu a pena enquanto durou.
Bem diferente do casamento.
Casar é morar junto, é dividir rotina, conta de luz e, muitas vezes, até os boletos do cartão. É formar um lar, gerir filhos — co-dependentes que, mesmo com um eventual afastamento, serão para sempre um elo entre aquelas duas pessoas.
Nunca fui casada, e imagino que deva ser maravilhoso quando funciona. Mas, como espectadora, e também ao acompanhar tantas mulheres que me procuram após um divórcio complicado, tenho percebido o quão engessado é um matrimônio — e o quão complexa pode ser uma separação.
É como um investimento com pouquíssima liquidez, cláusulas difíceis de romper e consequências emocionais e patrimoniais relevantes.
Peraí... isso também poderia ser uma descrição perfeita de um COE.
Does it ring a bell?
Provavelmente o seu assessor de investimentos já te ofereceu esse produto alguma vez.
Os COEs (Certificados de Operações Estruturadas) combinam um título de renda fixa ou um índice de renda variável com algum derivativo, como opções.
São produtos travados e normalmente longos, pouco transparentes, recheados de letrinhas miúdas e promessas de retorno acima do CDI.
Assim como uma festa de casamento nos dias de hoje, os COEs costumam sair bem caro: a corretagem — ou seja, o valor que fica com a corretora e o assessor pela transação — pode variar de 2% a 6% do total investido.
E o pior: esse custo não aparece de forma direta, não é nada transparente — vem embutido na estrutura do produto.
Por serem mais complexos, podem parecer sofisticados — e até bonitos na vitrine —, como tantos casamentos que vemos nas redes sociais, mas que, em essência, são bem problemáticos. Na prática, muitas vezes não fazem sentido, são difíceis de entender e, principalmente, de sair.
Importante o disclaimer: assim como algumas relações conjugais, nem todo COE é ruim. E, como certos acordos da vida a dois, pode até trazer vantagens.
Muitos oferecem proteção de capital até a data de vencimento — o que pode ser interessante para investidores mais conservadores, que têm receio de se expor diretamente a classes mais voláteis, como a renda variável.
Além disso, permitem acesso a estratégias que, para o investidor comum, seriam mais difíceis de replicar — como apostas em moedas, commodities exóticas ou índices internacionais. Ainda assim, é preciso cautela: entender cada detalhe e se inteirar de todas as letrinhas miúdas do prospecto é essencial para saber se vale mesmo a pena.
Sejamos sinceras: na maioria dos casos, não vale a pena casar com esses Certificados.
Os custos embutidos são altos, a liquidez é quase inexistente e o retorno, muitas vezes, não compensa — tipo aquele relacionamento que te promete o mundo nos primeiros meses, mas depois de poucos anos raramente te leva pra jantar.
Recentemente, vimos COEs de grandes instituições financeiras virarem pó, após cláusulas de vencimento antecipado serem ativadas pela deterioração dos ativos de lastro. Um caso emblemático foi o COE da Braskem, que perdeu quase todo seu valor mesmo sem a companhia ter dado default — suas debêntures, embora estressadas, ainda estão “em jogo”. É verdade que a empresa enfrenta pressões de caixa no curto prazo e dívidas relevantes vencendo em 2028, mas continua sendo líder de mercado, reconhecida e empregando milhares de pessoas. Falência não parece ser o desfecho mais óbvio neste caso, ainda que o nível de incerteza seja bastante alto.
COEs podem fazer sentido em situações muito específicas — quase como casamentos arranjados que, por alguma razão misteriosa, acabam dando certo.
Mas são exceções. No restante do tempo, é melhor ficar só namorando: leve, feliz, sem cláusulas abusivas... e com liberdade pra sair quando o amor (ou o retorno) deixar de compensar.

